
Val Kilmer, que protagonizou alguns dos maiores filmes dos anos 1980 e 1990, incluindo "Top Gun - Ases Indomáveis", "The Doors", como o lendário vocalista da banda Jim Morrison, e "Batman Para Sempre", morreu aos 65 anos.
O ator norte-americano morreu de pneumonia na terça-feira em Los Angeles rodeado pela família e amigos, disse a sua filha Mercedes, que confirmou à agência Associated Press que o pai fora diagnosticado com cancro na garganta em 2014, ms conseguira recuperar.
Originalmente um ator de teatro, Kilmer disparou no grande ecrã cheio de carisma quando foi escolhido para ser uma estrela de rock na paródia da Guerra Fria "Ultra Secreto" em 1984.
Dois anos depois, conquistou a fama como o arrogante, embora que principalmente silencioso piloto de caça Tom "Iceman" Kazansky no sucesso de bilheteira que foi "Top Gun - Ases Indomáveis", como rival do "Maverick" de Tom Cruise.

Um ator versátil cuja carreira durou décadas, Kilmer alternou entre sucessos de bilheteira e filmes independentes de menor orçamento.
Obteve estatuto de protagonista com "The Doors - O Mito de uma Geração" (1991), no papel da sua vida, como um perfeito Jim Morrison, que passou de estudante de cinema amante de psicadélicos para vocalista do rock, nesta análise profunda e polémica sobre a contracultura de final da década de 1960 pela mão de Oliver Stone.

A seguir, a carreira atingiu o apogeu no início dos anos 90, quando empunhou as pistolas de Doc Holliday, ao lado de Kurt Russell e Bill Paxton em “Tombstone” (1993), para depois protagonizar o fantasma de Elvis em "Amor à Queima-Roupa" (1993), escrito por Quentin Tarantino.
Em seguida, foi o perito em demolições de bancos ao lado de Al Pacino e Robert De Niro no filme de culto "Heat - Cidade sob Pressão" (1995), de Michael Mann, fez uma passagem como o vigilante mascarado de Gotham City em "Batman Para Sempre" (1995), entre as passagens como Bruce Wayne de Michael Keaton e George Clooney, e esteve ao lado de Michael Douglas em "Caçadores na Noite" (1996).
“Enquanto trabalhava com o Val em 'Heat', maravilhava-me sempre com o alcance, a brilhante variabilidade dentro da poderosa corrente do caráter possessivo e expressivo do Val. Após tantos anos do Val a lutar contra doenças e mantendo o seu espírito, esta é uma notícia tremendamente triste”, escreveu Michael Mann.

Seguidor do método Suzuki de formação em artes Suzuki, atirava-se aos papéis. No caso de Doc Holliday, encheu a cama de gelo na cena final para imitar a sensação de estar a morrer de tuberculose. Ao interpretar Morrison, usava permanentemente calças de cabedal, pedia aos colegas de elenco e à equipa que se referissem a ele apenas como Jim Morrison e tocou The Doors durante um ano.
Essa intensidade deu-lhe a reputação de ser difícil trabalhar com ele, algo com que Kilmer acabou por concordar mais tarde, nas suas memórias - ‘I'm Your Huckleberry’ -, enfatizando a primado da arte sobre o negócio.

Após as dificuldades da rodagem de "Batman Para Sempre" e "A Ilha do Dr. Moreau" (1996), surgiu um artigo de capa da revista Entertainment Weekly de 1996 que se tornou célebre que o apelidou de "O Homem que Hollywood Adora Odiar", retratando-o como um excêntrico às vezes mal-humorado com hábitos de trabalho exasperantes. Nunca mais se conseguiu livrar da imagem.
Um entrevistador do New York Times em 2002 disse que Kilmer "dificilmente faz jus a essa reputação" e achou-o "amigável, alegre e tão aberto que frequentemente oferece detalhes pessoais sobre a sua vida e é rápido a rir de si mesmo".
"Tem que se aprender a falar [o idioma de] Val", disse o realizador D. J. Caruso ao jornal, que o dirigiu em "Obsessão e Vingança" (2002), um dos seus melhores trabalhos.
Vida mágica

Nascido na véspera do Ano Novo de 1959, Val Edward Kilmer começou a atuar em anúncios publicitários quando ainda era miúdo.
Kilmer foi a pessoa mais jovem a ser aceita no departamento de teatro da lendária escola Juilliard de Nova York, e fez sua estreia na Broadway em 1983 ao lado de Sean Penn e Kevin Bacon.
Em Hollywood, o nativo de Los Angeles ansiava por fazer filmes sérios, mas viu-se numa vaga de sucessos de bilheteira e a seguir fracassos dispendiosos, como "O Santo" (1997) e "O Planeta Vermelho" (2000).
Manteve-se por Hollywood, elogiado por "Os Crimes de Wonderland (2003), "Spartan - O Rapto" (2004), aqui dirigido por David Mamet, e "Kiss Kiss Bang Bang" (2005), mas foi castigado por uma década ou mais de filmes de baixo orçamento.

Estava a conseguir um regresso na década de 2010 com um espetáculo de sucesso sobre Mark Twain que esperava transformar num filme quando foi atingido pelo cancro.
"Val", um documentário íntimo sobre a ascensão estratosférica de Kilmer e a sua posterior queda em Hollywood, estreou no festival de cinema de Cannes em 2021 e mostrou-o a lutar para respirar após uma traqueotomia.
“Portei-me mal. Comportei-me corajosamente. Para alguns, comportei-me de forma bizarra. Não nego nada disto e não me arrependo de nada, porque perdi e encontrei partes de mim que nunca soube que existiam”, afirma no final do documentário. “E sinto-me abençoado”.
Kilmer "tem a aura de um homem que recebeu a sua punição cósmica e a superou", escreveu a revista Variety sobre o filme. "Caiu do estrelato, talvez da boa-vontade [da indústria], mas fê-lo à sua maneira."
Quando repetiu o seu papel como Iceman na aguardada sequela "Top Gun: Maverick" (2023), os problemas de saúde da vida real e a voz rouca foram colocadas na personagem.
"Em vez de tratar Kilmer — e, de facto, toda a noção de 'Top Gun' — como um objeto de nostalgia descartável, ele recebeu um canto do cisne no ecrã que resistirá ao teste do tempo", escreveu a revista GQ.

No seu 'site', Kilmer disse que teve uma "vida mágica".
"Durante mais de meio século, tenho aprimorado a minha arte, não importa onde. Seja literatura, filmes, poesia, pintura, música ou o rastreamento da vida selvagem exótica e bela", escreveu.
Kilmer publicou dois livros de poesia (incluindo “My Edens After Burns”) e foi nomeado para um Grammy em 2012 pelo álbum de spoken word “The Mark of Zorro”. Foi também artista plástico e cientista cristão durante toda a vida.
Namorou com Cher, casou e divorciou-se da atriz Joanne Whalley, que conheceu na rodagem de "Willow – Na Terra da Magia" (1988). Deixa dois filhos, Mercedes e Jack.
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