
Se às vezes a realidade supera a ficção, outras tantas também a inspira. É esse o caso de "Dying for Sex", série baseada na experiência verídica de Molly Kochan, vítima de um cancro de mama em 2019. No ano seguinte, a história trágica da norte-americana foi contada num podcast cujo título se mantém na comédia dramática do FX que se estreia em Portugal através do Disney+.
Mas a vivência da protagonista ao longo dos seus últimos meses está muito longe de outros casos reais de confronto com a adversidade já trabalhados pela ficção no pequeno ecrã. A série criada por Elizabeth Meriwether ("The Dropout") e Kim Rosenstock ("Homicídios ao Domicílio") olha de frente para o despertar sexual de Molly, interpretada por Michelle Williams, depois de um diagnóstico nada otimista. Uma viragem que não traz boas notícias à sua relação com Steve, papel de Jay Duplass, nos primeiros dos oito episódios desta temporada.

Tal como o podcast que a inspirou, a série vale-se de um tom franco e sem meias palavras, reforçado pela presença de uma atriz como Jenny Slate na pele de Nikki, a desbocada melhor amiga e cuidadora de Molly. Sissy Spacek, outra presença feminina forte, também faz parte do elenco da aposta que marca o regresso de Duplass à televisão depois da ótima segunda temporada de "Industry" (da Max, em 2022) e de uma participação em "Percy Jackson" (Disney+, 2023). Em conversa com o SAPO Mag, o norte-americano já com um longo percurso tanto à frente como atrás das câmaras (da passagem marcante como ator por "Transparent" aos filmes e séries que criou e dirigiu com o irmão, Mark) conta o que o motivou a aceitar fazer parte deste retrato invulgar e ambíguo:
SAPO Mag - "Dying for Sex" é ao mesmo tempo uma comédia sexual e um drama sobre a doença- em especial uma das mais pesadas, um cancro. Já está habituado à comédia e ao drama, mas como é que os conciliou neste caso?
Jay Duplass - Boa pergunta. De facto, não me é estranho fazer malabarismos entre a comédia e o drama. O que eu acho é que temos de nos empenhar a 100% no drama e, quanto mais nos esforçarmos, mais engraçado será. Não quer dizer que se desligue o cérebro da comédia. Sabemos que estamos a representar quando fazemos algo que pode ser potencialmente engraçado. Mas acho que, no caso desta série e da maior parte do meu trabalho também, o drama só ajuda a comédia, pelo menos a comédia de que gosto, que vem de ações desesperadas e de um compromisso dramático total. É nessa altura que tem mais piada. Penso que é esse o caso da minha personagem, Steve, nesta série, em que ele é um bocado nerd. É muito empenhado e muito bom a gerir um plano de saúde, como prova o facto de ter conseguido ajudar a Molly a recuperar a remissão dos seus tratamentos anteriores contra o cancro. Por isso, ele é muito otimista em relação ao que está a fazer. Adoro o facto de ele ser, essencialmente, o antagonista da série, mas o seu objetivo é manter a mulher viva porque a ama muito. É uma personagem muito complexa e senti-me com sorte por a interpretar.
Nos primeiros episódios, não temos a certeza se devemos gostar de Steve ou não... ele parece muito empenhado em proteger Molly, mas não a compreende muito bem. Como se colocou na pele de uma personagem assim?
Bom, teria de perguntar à minha mulher. (risos) Engano-me muitas vezes. Mas sim, acho que é uma coisa comum na vida... as pessoas pensam que se conhecem ou que estão a fazer a coisa certa, mas estão muito microcosmicamente concentradas nos seus próprios objetivos ou nas suas próprias necessidades. Claramente, para o Steve, ele só quer que a sua mulher viva. Ele quer que a sua mulher viva e quer salvar o dia. Se há alguma coisa que sabemos sobre os homens americanos brancos heterossexuais é que eles querem salvar o dia. Querem vestir os collants e a capa e salvar o dia. Acho que esta série demonstra que já não é disso que precisamos. Precisamos de formas mais matizadas, mais complicadas e mais empáticas de ver como viver uma boa vida. O que é tão bom nesta série é que pode parecer muito terapêutica, mas é muito engraçada. É super divertida. Na verdade, a essência é sobre a Molly descobrir quem ela realmente é através de aventuras sexuais. Por isso, é uma série muito selvagem e tem um tom muito ambicioso. E estou muito entusiasmado por fazer parte de um projeto tão grande.

Ultimamente, tem-se discutido o olhar masculino e feminino, não só no cinema, mas também na televisão, sobretudo em séries mais autorais como esta. Diria que o olhar feminino foi claramente fácil de identificar nesta série ao trabalhar nela? Afinal, inspira-se num podcast inspirado numa mulher, foi criada por mulheres e também maioritariamente dirigida por mulheres...
Foi muito evidente para mim ao longo de todo o processo, mas também não sou alheio a isso. Por alguma razão, a maioria das pessoas que me contratam como ator são mulheres. E, por isso, encontro-me frequentemente em séries centradas nas mulheres. "Transparent", por exemplo, é uma série centrada nas mulheres. Tem um olhar feminino. "The Chair" foi escrita e criada por uma mulher e tem como protagonista a Sandra Oh, e é uma série muito centrada nas mulheres. Aprecio isso, está mais perto da forma como vejo o mundo. Não sei se é correto dizer isto na cultura atual, mas sinto que tenho um olhar mais feminino. Como criador de arte, funciono mais como um autor que está apenas a tentar juntar pessoas e criar algo bonito. E tento estar mais num modo recetivo quando estou a escrever e a dirigir arte. Por isso, sinto-me muito mais confortável nesse ambiente. Adorei trabalhar para a Liz e a Kim, as criadoras. Acho que elas são maravilhosas, inteligentes, atenciosas e cheias de nuances. E elas são as showrunners de sonho porque constroem um mundo incrível. Contam histórias incríveis. São muito divertidas e também estão presentes. Não houve um dia em que a Kim ou a Liz, ou ambas, não estivessem presentes. Estavam presentes porque, quando se está a mergulhar nestas coisas emocionais profundas, é preciso ter os criadores presentes. É como ter um pai no cenário quando se é uma criança muito pequena e é preciso saber que se está seguro. Eles fizeram isso em abundância. É um projeto de sonho.
Além de ator, é realizador, argumentista e produtor. Mantém uma agenda apertada para gerir todas estas vertentes ou vai definindo os seus projetos à medida que vão avançando? E sente que ganha mais ou perde mais a fazer tudo isto? Provavelmente, acaba por recusar muitas propostas em algumas dessas áreas...
Tenho, de facto, uma agenda de aspeto ridículo. (risos) Quando as pessoas vêem a minha agenda, riem-se muitas vezes por ser tão apertada, porque também tenho dois filhos e sou um homem de família muito empenhado. Mas diria que os meus truques são, como disse: um, dizer muito não, e dizer não dá-nos coisas melhores, a 100%. Por isso, às vezes, recuso algumas coisas que são difíceis de recusar. O meu objetivo na vida é fazer arte de que gosto e em que acredito com pessoas maravilhosas, e ter muitas opções ajuda-me a aperfeiçoar isso, porque estes tipos de projetos são muito raros. Por isso, sim, digo muito "não". E a outra parte é não ter uma vida social. (risos) Estou numa altura da minha vida em que tenho a sorte de estar a fazer muitas coisas. Tenho a sorte de ter dois filhos maravilhosos e saudáveis que querem estar comigo. Por isso, limito-me a trabalhar e a passar tempo com a família e mantenho tudo muito, muito simples. Por vezes, é um pouco agitado, mas tento manter-me concentrado. Se alguém me pede para beber um copo, tenho de explicar: "Lamento, mas não gosto de beber. Prefiro fazer um filme".
Comentários