"Os filhos do mar alto", editado em Portugal pela Alfaguara, é um livro de estreia, autobiográfico, premiado, a partir do qual a realizadora fez um documentário homónimo, que se estreou em 2024 no Festival Nouveau Cinema de Montreal, onde foi distinguido.

A autora nasceu no mar das Caraíbas, em 1986, a bordo de um veleiro construído pelo pai, o navegador norueguês Peter Tangvald, mas era ainda bebé quando foi levada pela mãe, que fugiu do marido e daquele barco a que chamavam casa, rumo ao Canadá.

Cinco anos depois, Peter Tangvald morreu num naufrágio, juntamente com uma outra filha, de oito anos, quando a sua embarcação embateu num recife de corais, tendo apenas sobrevivido o seu filho Thomas, de 15 anos, ambos filhos de outras mães.

Assim que fez 20 anos, Virginia Tangvald foi à procura do irmão, mas algo a perturbou, levando-a a fugir um dia depois de estar com ele, de terem um acidente de automóvel e de passarem uma noite a conversar.

Foi quando o irmão, também velejador, desapareceu no mar numa noite de tempestade, em 2014, que a autora se decidiu a investigar todo o passado familiar, a reapropriar-se da história e a escrevê-la, contou, em entrevista à Lusa.

Para isso, viajou por todos os locais onde pai e irmão tinham estado, em particular na ilha de Bonaire e em Porto Rico, consultando documentos e recolhendo testemunhos de pessoas que os haviam conhecido e que começaram a "relatar histórias que não coincidiam com a versão oficial que o pai havia contado".

"Inicialmente, pensei que essas pessoas estivessem confundidas ou a perder a memória, mas depois compreendi que, na verdade, elas nunca tinham lido os livros que o meu pai escreveu e não tinham sido influenciadas pela sua narrativa. Ao investigar mais, percebi que esses relatos estavam corretos e que havia muito mais por trás da história familiar do que imaginara".

Virginia Tangvald compara a sua experiência de crescer na sombra de um pai lendário, que só conheceu através de recortes de jornais, com a jornada de Telémaco em busca de Ulisses, que "via representações artísticas do pai, mas isso só aumentava a sua sensação de distância".

Da mesma forma, ela sentia que crescer com imagens e histórias sobre o pai não a aproximava dele, antes tornava-o mais inalcançável.

"Eu conseguia realmente identificar-me com isso. Ter essas representações dele fazia-o parecer ainda mais distante e inalcançável. Talvez eu ansiasse por um pai, mas em vez de ter essa pessoa, eu tinha alguém que era maior do que a vida e que não era como um humano", disse.

Peter Tangvald - descobriria a autora - foi um homem destemido, amado e admirado por uns, odiado e receado por outros, que navegava pelo mundo sozinho com duas crianças a bordo, num veleiro sem motor e sem grandes apetrechos náuticos, guiando-se apenas pelas estrelas.

As mães desses dois filhos morreram em alto mar em circunstâncias misteriosas: uma num ataque de piratas (que o pouparam a ele e ao filho) e a outra numa queda do barco depois de levar com a retranca – segundo os seus próprios depoimentos.

Virginia relata que o pai trancava frequentemente os filhos na cabine do barco, e que a sua mãe, que também fora velejadora, se sentia cada vez mais aprisionada e amedrontada, a viver o tipo de vida que o marido escolheu, trabalhando duramente a bordo, enquanto cuidava de três crianças, e sem que as suas aspirações e opiniões tivessem qualquer tipo de valor.

"As esperanças de liberdade da minha mãe haviam-se dissolvido num sonho estranho, uma figura de jogos de sombra. Um sonho como um pacto com o diabo. Uma fera que precisava de ser incessantemente alimentada e que sabíamos que acabaria por nos engolir. Ela achava que ele a olhava de forma estranha", escreve a autora no livro.

Apesar de ter ido em busca de respostas que lhe permitissem reescrever um passado que lhe estivera vedado, Virginia confessa que ainda "restam incertezas".

"Por vezes questionava-me se a minha busca não seria mais do que uma tentativa de provar que o meu pai era culpado de homicídio, e isso fazia-me sentir desconfortável, como se tivesse uma obsessão estranha com a minha própria família".

Sempre que encontrava evidências que apontava para a culpa do pai, também surgiam dúvidas e contra-argumentos, relata, salientando que, para ela, independentemente de Peter Tangvald ter ou não matado aquelas mulheres, ele "foi responsável pelas suas mortes, ao negligenciá-las, ignorar as suas vontades, expô-las a riscos desnecessários e afastá-las das suas famílias".

Apesar das dúvidas que permanecem, Virginia Tangvald sente que encontrou as respostas de que precisava: compreendeu que a sua obsessão vinha da necessidade de entender a sua própria história e a do seu pai, que a sua busca por liberdade também envolvia uma busca por controlo, e que, ao recuperar essa narrativa e dar-lhe sentido, a história deixara de ter poder sobre ela.

"Ainda há perguntas sem resposta, como o paradeiro do meu irmão, se ele morreu ou apenas desapareceu, e a verdade definitiva sobre as mortes das mulheres, mas o que realmente importa, é ter compreendido por que é que essas vidas foram destruídas, o que me permitiu encontrar paz".

Escrever o livro permitiu-lhe reconciliar-se com a vida e com o seu passado, embora no início não esperasse isso.

"A ideia surgiu de uma mulher num café que, após ler o livro, me disse que aquela história era o meu passaporte para a vida e eu achei essa observação muito bonita e percebi que era verdade".

Virginia confessa que durante toda a vida teve "uma falta de pertencimento", especialmente por ter nascido num barco que depois desapareceu, fazendo-a sentir-se vinda de lugar nenhum e, por consequência, como se nunca estivesse realmente num sítio, mas "sempre em exílio, sempre de passagem".

Para a autora, a escrita deste livro foi "muito difícil", tanto estrutural como emocionalmente.

"Eu não podia contar a história de forma cronológica, pois perder-se-ia o significado. O desafio era apresentar as informações ao leitor no momento certo, para que a história fosse construída gradualmente. A narrativa não era só sobre o meu pai ou o meu irmão, mas sobre mim, sobre o que eu estava a descobrir e o que isso significava para mim".

No fundo, é como se a autora apresentasse as peças de um grande puzzle, cabendo ao leitor juntá-las e tirar as suas conclusões.

Em termos emocionais, o processo foi ainda mais complexo, tendo levado a escritora a desenvolver sintomas físicos causados pelo ‘stress’, como tosse, dores corporais, queda de cabelo e sangramento nasal, chegando mesmo a ter de ser internada.

Simultaneamente, o processo de descobrir a verdade e escrever sobre isso foi uma "forma de alívio", pois mesmo que as descobertas "fossem sombrias", estava finalmente a desvendar os segredos que tinha dentro de si e a perceber de onde vinha a tensão interna.

A escrita de Virginia Tangvald é dotada de um ritmo, poesia e uma musicalidade a que não é alheia a sua formação na área da música, pois acredita que esta se aplica a todas as formas de arte, incluindo o cinema, e que na escrita existe uma "conexão com o ritmo e a estrutura musical".

"Quando escrevo, sinto uma espécie de impulso, algo semelhante ao movimento de uma frase musical, que se começa a levantar para depois assentar, criando uma sensação no leitor. É difícil de explicar, mas é como se a escrita fosse uma dança de sentimentos e sensibilidade, onde o objetivo é provocar uma reação no leitor, tal como acontece com a música".

Olhando para as suas origens e o caminho percorrido, Virginia Tangvald conta que durante muito tempo imaginou que viveria num veleiro, compartilhando essa paixão pela água com o pai, mas com o tempo percebeu que não sentia verdadeiramente "o apelo do mar", porque não só não tinha essa "ligação profunda", como entendeu que a busca por uma liberdade absoluta e sublime, que idealizou, estava ligada à destruição.

"A visão que antes tinha da liberdade estava ligada ao conceito de renunciar a tudo, inclusive aos afetos e à segurança, mas percebi que essa busca pode levar à loucura ou à morte, como aconteceu com o meu pai".