A história de um lutador numa má fase da vida, protagonizada por Dwayne "The Rock" Johnson, e a de Anne Lee, fundadora do movimento "Shakers", interpretada por Amanda Seyfried, foram os grandes destaques de segunda-feira na 82ª Mostra de Veneza.
Tanto "The Smashing Machine - Coração de Lutador", dirigido por Benny Safdie, como "The Testament of Ann Lee", realizado pela norueguesa Mona Fastvold, estão entre as 21 produções que disputam este ano o Leão de Ouro, que será entregue no sábado por um júri presidido por Alexander Payne que inclui a atriz brasileira Fernanda Torres, a atriz chinesa Zhao Tao, o cineasta francês Stéphane Brizé, a cineasta italiana Maura Delpero, o cineasta romeno Cristian Mungiu e o cineasta iraniano Mohammad Rasoulof.
Atração principal do dia no Festival de Cinema de Veneza — a sua primeira aparição num festival europeu — onde se relacionou com realizadores e fãs do cinema independente no Lido, Dwayne Johnson, de 53 anos e visivelmente mais magro, o que está a gerar comentários nas redes sociais, disse que abandonou os seus musculados papéis em filmes de ação para se poder expressar como ator.
Em "The Smashing Machine", dirigido por Benny Safdie, transforma-se no norte-americano Mark Kerr, um dos primeiros lutadores de artes marciais mistas (MMA), que enfrenta problemas de dependência química.
O filme passa-se no final dos anos 1990 e início dos 2000, um momento crucial na carreira de Kerr, que, no seu auge, responde a um jornalista que "não sabe" como se sentiria se perdesse uma luta, porque "nunca perde".
Mas a obra vai mais além e mostra Kerr a lutar tanto no ringue como em casa, onde são recorrentes os embates com a sua esposa Dawn, interpretada por uma dedicada Emily Blunt à beira do colapso.
Johnson, que foi lutador profissional até 2019, lembrou em Veneza que conheceu Mark Kerr no final dos anos 1990, "um herói".
"Lembro-me de conversar com Mark naquela época (...), tinha tanto respeito pela sua carreira. E é surpreendente como, anos depois, a vida pode fechar o círculo de maneira incrível", disse o ator, conhecido mais pelos seus papéis em filmes de ação como "Black Adam" e os da saga "Velocidade Furiosa".
Ao ser questionado sobre esses filmes, verdadeiros sucessos de bilheteira, "The Rock" afirmou que fez "esses filmes e apreciou-os", mas tinha um "desejo ardente" de explorar outro género.
Admitiu que fez esses papéis por razões comerciais e que "a bilheteira na nossa indústria é muito barulhenta, pode ser muito ressonante e empurrar-nos para uma categoria e encurralar-nos".
"Percebi isso e fiz aqueles filmes... alguns foram muito bons e resultaram, e outros nem por isso", confidenciou.
E acrescentou: "Muitas vezes é difícil, pelo menos para mim (...), saber do que se é capaz quando está categorizado em algo (...) e precisa-se que pessoas que ama e respeita, como a Emily e o Benny, digam: 'Tu consegues'".
"Simplesmente tinha este desejo ardente e esta voz que dizia: 'Bem, e se? E se houver mais e se eu puder?'"
Em teoria, o papel em "The Smashing Machine" foi feito à medida. Mas Mark Kerr — em contraste com muitos dos papéis anteriores de Johnson — é uma personagem cheia de falhas e nuances, com uma relação por vezes tóxica com Dawn.
"O filme não é sobre lutas. É uma história de amor entre Mark e Dawn e a sua relação", disse Johnson, revelando ainda que teve de ganhar massa muscular para o papel a pedido de Safdie.
Na sua crítica, a bíblia da indústria Variety chamou a Johnson uma "revelação", acrescentando que "parece um novo ator".
Descrevendo a antestreia noutro artigo, a revista disse que o gigantesco ator "soluçava incontrolavelmente enquanto a plateia no Lido irrompia numa ovação de pé de 15 minutos, uma das mais longas do festival deste ano até agora". O mesmo aconteceu com o realizador e o próprio Kerr, presente na sala.
A Variety descreveu o evento como o "mais emocionante" no festival "desde que Brendan Fraser caiu em lágrimas, há quatro anos, ao lançar a sua campanha para os Óscares por 'A Baleia'".
Seyfried em transe
Por sua vez, a proposta da realizadora norueguesa Mona Fastvold em "The Testament of Ann Lee" transporta o público para o século XVIII, para mostrar os primórdios do movimento religioso conhecido como "Shakers", famoso pelas orações durante as quais os fiéis entravam em transe e agitavam o corpo.
Amanda Seyfried ("Mean Girls", "Mank") dá vida a Anne Lee, uma britânica de Manchester que, devastada pela perda de quatro filhos ainda bebés, decide renunciar completamente ao sexo e dedicar-se inteiramente à religião.
Segundo a atriz, interpretar esta personagem, que carrega tanto sofrimento, foi "difícil" e também "fantástico", até "terapêutico", declarou na conferência de imprensa.
O movimento fundado por Lee ganha adeptos que se reconciliam com Deus após terem pecado, sacudindo vigorosamente o corpo, num filme de época que namora com o género musical, onde os atores interpretam várias canções inspiradas nos hinos reais entoados na época.
A realizadora disse que não concordava com todas as suas ideias, mas "na história de Anne Lee, o que mais me chamou atenção é a maneira como ela lidera (...) com empatia e gentileza" para "criar um espaço onde todos fossem iguais, homens, mulheres, negros". Mona Fastvold escreveu o argumento com o seu marido, o cineasta Brady Corbet, cujo filme "O Brutalista" usou Veneza como rampa de lançamento para culminar na conquista de três Óscares, incluindo o de Melhor Ator para Adrien Brody.
Também a realizadora abraçou emocionada Amanda Seyfried durante uma longa ovação de pé no final da projeção.
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