O cineasta viajante Werner Herzog, um aventureiro eclético cujas obras monumentais exploram frequentemente o conflito da humanidade com a natureza, vai receber um prémio especial esta quarta-feira, na abertura do Festival de Veneza.

O gigante do cinema artístico, de 82 anos, que ajudou a lançar o Novo Cinema Alemão na década de 1960, vai receber o Leão de Ouro pela carreira, acompanhando a estreia no festival do seu mais recente documentário, "Ghost Elephants" ("Elefantes Fantasmas", em tradução literal), sobre uma manada perdida em Angola.

O prémio será entregue na cerimónia de abertura pelo lendário cineasta Francis Ford Coppola.

Herzog realizou mais de 70 filmes, alcançando a fama nas décadas de 1970 e 1980 com filmes arrebatadores sobre megalómanos obsessivos e as suas lutas com a natureza.

O realizador e explorador audacioso alemão realizou uma série de documentários nos últimos anos, muitos em locais exóticos, enquanto continua a fazer aparições em filmes, incluindo participações especiais em "Os Simpsons".

Herzog "nunca deixou de testar os limites da linguagem cinematográfica", disse o diretor artístico do festival, Alberto Barbera, ao anunciar o prémio em abril.

"Cineasta físico e caminhante incansável, Werner Herzog atravessa constantemente o planeta Terra em busca de imagens até então inéditas... sondando os limites da representação cinematográfica numa busca incansável por uma verdade superior e extática e por novas experiências sensoriais", disse.

Realizador de exteriores

"Fitzcarraldo"

Nascido em Munique em 1942, Herzog começou a fazer experiências com filmes aos 15 anos, tornando-se conhecido como argumentista, produtor e realizador. Também é escritor: estão editados em Portugal “O Crepúsculo do Mundo”, “A conquista do inútil”, “Caminhar no gelo” e “Cada um por si e Deus contra todos”.

Uma longa e polémica colaboração com o ícone do cinema alemão Klaus Kinski resultou em filmes épicos como "Aguirre, o Aventureiro", de 1972, sobre a busca de El Dorado na selva amazónica, ou "Fitzcarraldo", de 1982, sobre um sonhador louco decidido a construir uma casa de ópera na selva — na qual Herzog fazia com que os figurantes puxassem um enorme navio a vapor colina acima.

Outros filmes dignos de nota incluem o filme de terror gótico "Nosferatu, o Fantasma da Noite", de 1979, o documentário "Grizzly Man", de 2005, e "Polícia Sem Lei", de 2009, com Nicolas Cage.

Viajante inveterado, Herzog é conhecido por abandonar os estúdios em busca de aventuras ao ar livre, filmando na Amazónia, no deserto do Saara ou na Antártida.

Colocando-se frequentemente no centro dos seus documentários — género pelo qual é particularmente conhecido —, o realizador aproximou-se perigosamente de vulcões ativos em "Into the Inferno", de 2016, enquanto entrava no corredor da morte no Texas por "Into the Abyss", em 2011.

Um prolífico encenador de ópera — incluindo em Bayreuth e no Scala —, Herzog também publicou poesia e prosa, incluindo o seu romance "The Twilight World", de 2021, um diário de 1978 e um livro de memórias de 2023.